Já faz um tempo que eu aceitei que precisava conviver com a saudade, porque eu sempre estou sentindo saudade de alguém, de algum lugar, de alguma sensação, mas hoje me dei conta de outra coisa. Quando eu era criança eu passava as minhas férias no interior enquanto minha mãe viajava ou ficava na cidade. Eu amava o período das férias, mas eu sabia que essa felicidade tinha um preço muito alto. Eu sentia todos os dias saudade da minha mãe, principalmente no final do dia. E aí com o passar dos anos percebi que minha felicidade sempre estaria sendo paga com saudade. Se eu estivesse com minha mãe, tinha saudade dos meus amigos ou então o contrário. Era impossível juntar tudo que eu amava no mesmo espaço-tempo. Era como se eu vivesse em mundos paralelos. Eu parecia já ter aceitado isso. Todavia,
Hoje me disseram "vos sentís falta de la falta" ...
Se eu parar pra pensar na minha vida inteira e procurar um período em que eu não sentia falta de nada, talvez eu não encontre. Se trago minha memória mais distante, vejo que nela eu já convivia com a falta do meu pai. Hoje eu sei que o que eu sinto dele não é saudade, porque não tenho sequer uma boa memória com ele. Toda vez que eu tento lembrar dele, a única coisa que me vem é a bendita falta. Será que a falta que ele fez durante todos esses anos da minha vida me fez ser assim? Será que a falta que eu sinto de tantas coisas na verdade é uma só e mesma falta que permanece aberta e vazia como uma ferida? Acho que sinto uma espécie de falta crônica, porque parece que eu já vim ao mundo faltando um pedaço.
Por mais feliz e realizada que eu esteja, sempre vai me faltar alguma coisa. Sentir falta é parte do que eu sou? Sinto, por exemplo, a falta absurda de um amigo. Eu não o procuro, embora doa muito a falta que ele me faz, porque eu não sinto falta de quem ele é hoje. Hoje eu nem o conheço. Eu sinto falta de quem ela era há 10 anos. Não por acaso, ontem sonhei com ele. Sonhei que nos reencontrávamos. Quando ele me via, ele abria um enorme sorriso e corria pra me abraçar, eu estava como estou hoje e ele ainda tinha 11 anos, como naquele época que ele me amava e que eu continuo amando.
Talvez seja daí que a falta se alimente, da minha dificuldade de deixar de amar o que já passou, o que não existe mais. Se sinto falta deve ser porque essas coisas estão presentes em mim, continuam vivas no meu corpo. Vai ver eu só sinto falta porque amo coisas que não deveria amar mais. Então como eu faço para apagar de mim aquilo que já foi apagado pela vida?