Encontros

Encontros
São Luís, MA.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

Adiando finais

 


(texto encontrado entre páginas escritas no final de 2016)

 

Hoje finalmente eu terminei de ler um livro. Pode parecer bobagem, mas já fazia meses que eu precisava terminar e não conseguia. Eu me sentia presa de alguma maneira, mesmo quando ler esse livro fazia eu perder coisas importantes da minha vida. Era um livro duro, com muitos personagens. A maioria deles não me agradava muito e sentia que eles não se relacionavam bem. Ele tinha palavras obscuras, frases que não faziam sentido. Às vezes eu me perdia e precisava voltar pra ler tudo de novo, mas eu queria continuar. 

Cem páginas depois eu comecei a amar um personagem. Parecia que ele tinha saído de um dos meus sonhos. Cada coisa que ele dizia era exatamente o que eu precisava ler. Eu gostava de mergulhar nas suas aventuras, de conhecer seu mundo, seus sonhos, seus medos. Eu gostava de sentir que que éramos próximos. Muito próximos. A cada dia que passava eu estava mais envolvida. Eu já não comia sem o livro, já não sentia alegria sem ele, já não dormia sem ele do lado. 

Mas o tempo que eu dedicava a ele começou a faltar em outras coisas. Eu comecei a chorar todos os dias, sentia que precisava terminar, mas não conseguia. Até que a dor foi ficando insuportável e eu finalmente terminei o livro. Não foi fácil. Não é fácil abandonar algo que te faz feliz. Quando eu fechei a última página foi como se eu tivesse arrancado um pedaço de mim ou como se ele fosse um espinho que atravessava o meu corpo impedindo meu sangue jorrar. Eu percebi que eu já não suportava mais. Eu o arranquei com as próprias mãos. Sangrei em lágrimas a noite inteira, mas agora acho que essa ferida pode cicatrizar. Eu fechei o livro e parei de escrever essa história. 

 

(É sobre fim, sobre términos, sobre amores, sobre apego. Acredito que nessa época eu estava lendo Cem anos de solidão).