(texto encontrado entre páginas escritas no final de 2016)
Hoje finalmente eu terminei de ler um livro. Pode parecer bobagem, mas já fazia meses que eu precisava terminar e não conseguia. Eu me sentia presa de alguma maneira, mesmo quando ler esse livro fazia eu perder coisas importantes da minha vida. Era um livro duro, com muitos personagens. A maioria deles não me agradava muito e sentia que eles não se relacionavam bem. Ele tinha palavras obscuras, frases que não faziam sentido. Às vezes eu me perdia e precisava voltar pra ler tudo de novo, mas eu queria continuar.
Cem páginas depois eu comecei a amar um personagem. Parecia que ele tinha saído de um dos meus sonhos. Cada coisa que ele dizia era exatamente o que eu precisava ler. Eu gostava de mergulhar nas suas aventuras, de conhecer seu mundo, seus sonhos, seus medos. Eu gostava de sentir que que éramos próximos. Muito próximos. A cada dia que passava eu estava mais envolvida. Eu já não comia sem o livro, já não sentia alegria sem ele, já não dormia sem ele do lado.
Mas o tempo que eu dedicava a ele começou a faltar em outras coisas. Eu comecei a chorar todos os dias, sentia que precisava terminar, mas não conseguia. Até que a dor foi ficando insuportável e eu finalmente terminei o livro. Não foi fácil. Não é fácil abandonar algo que te faz feliz. Quando eu fechei a última página foi como se eu tivesse arrancado um pedaço de mim ou como se ele fosse um espinho que atravessava o meu corpo impedindo meu sangue jorrar. Eu percebi que eu já não suportava mais. Eu o arranquei com as próprias mãos. Sangrei em lágrimas a noite inteira, mas agora acho que essa ferida pode cicatrizar. Eu fechei o livro e parei de escrever essa história.
(É sobre fim, sobre términos, sobre amores, sobre apego. Acredito que nessa época eu estava lendo Cem anos de solidão).