Eu lembro que quando eu tinha mais ou menos 3 anos eu amava ver televisão, mas ao contrário da maioria das crianças minha paixão não era apenas pelos desenhos animados. Eu não me contentava em ser a princesa Sara que tinha um lindo cavalo preto. Meu desafio favorito era decorar todas as falas e músicas que passavam nas propagandas. Lembro que mais ou menos naquela época fiquei horas pensando em como entrar dentro da tevê, eu achava que aquelas pessoas moravam lá dentro.
Quando eu tinha 7 anos eu já sabia escrever e era completamente apaixonada pela novela que mais fazia sucesso na época. Mais uma vez, não satisfeita em apenas assistir a novela, eu anotava as falas da minha personagem favorita e no dia seguinte, junto com outros colegas de escola, brincava de reproduzir as cenas.
Alguns anos depois, entre 9 e 10 anos, eu queria apresentar uma peça de teatro na escola para o dia dos pais, mas a professora disse que não tinha quem fizesse a peça. Então eu escrevi uma. E isso aconteceu mais algumas vezes, lembro que a última vez que escrevi uma peça e apresentei foi sobre a ditadura militar no segundo ano do ensino médio.
Quando eu terminei o ensino médio eu sabia muito pouco sobre como era um curso de teatro. A única coisa que eu ouvia falar é que existia um teste de aptidão pelo qual os professores avaliariam se você tinha ou não talento. E eu não me sentia segura pra isso. Aliás, acho que descobrir que eu não tinha talento pra fazer algo que eu sempre amei fazer, era o maior medo que eu tinha naquela época.
Eu me encontrei com a filosofia e nossa relação acadêmica me deu a oportunidade de ir morar em São Paulo para fazer o doutorado na USP. Ao chegar lá eu já sabia que era o momento de reencontrar a menina que amava atuar. E logo que cheguei comecei a frequentar o grupo de teatro da ECA. Fiz parte desse grupo por 4 anos.
Quando estava terminando a tese, literalmente nas últimas páginas, fui incentivada a tentar uma seleção para uma escola de teatro. E para imensa surpresa e a eufórica alegria eu fui aprovada. Até hoje me pergunto o porquê. Muitas vezes quando me sinto perdida durante as aulas, quando me vejo tremendo de medo, vergonha ou sentindo que não faço ideia do que tenho que fazer, me pergunto o que será que aquela banca de professores viu em mim.
Estudar teatro tem sido o maior desafio que eu já vivi e às vezes eu acho que tô fazendo tudo errado, que eu tô só perdendo tempo e dinheiro, e que deveria parar de querer realizar o sonho de uma criança de 5 anos de idade. Muitas vezes eu tenho medo de estar perdida, porque é assim que eu me sinto. Eu sei que começar algo do zero quando a gente já deveria ter uma carreira sólida etc etc pode ser um erro, mas eu não posso desistir, porque quando eu estou lá eu sinto que estou onde eu sempre quis estar.