Encontros

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São Luís, MA.

quinta-feira, 9 de julho de 2020

As perguntas são absolutas, as respostas não.



Tem coisas que eu faria de tudo para não esquecer. Tem coisas que faria tudo para esquecer. Temos algum controle sobre isso? Um dia me disseram: “transforma isso que você sente em arte, é a única coisa que dá pra fazer”. E para minha surpresa, descobri que o tema a ser estudado na escola esse semestre seria esse: amor. Irônico? Acaso? Destino? Não sei. Mas tenho pensado bastante. Descobri com tudo que pensei que não existe nada além de perguntas. As perguntas são absolutas, as respostas não. O que é amar alguém? Amamos várias pessoas ao mesmo tempo? Ou será que amor e desejo não são a mesma coisa? Ou será que existem diversas formas de amar? Eu criei a ilusão de que tudo seria mais fácil se eu fosse honesta, sincera e transparente sobre os meus sentimentos. Mas quem disse que isso existe? Eu sei de verdade o que eu sinto? Eu tenho certeza sobre quem eu sou e sobre o que eu quero? E o que eu sei hoje vai continuar igual amanhã? Queremos certeza dos outros, não temos nem de nós mesmos. Como amar alguém de maneira saudável se o nosso amor próprio não se sustenta? A outra pessoa se torna uma muleta emocional. “Eu preciso de você”. Não, não precisamos de outra pessoa. Dói perder, desapegar, mas passa. Sentimentos não são coisas concretas e sólidas. São apenas conexões nervosas, como se fossem pequenos choques dentro da nossa cabeça que alteram o funcionamento do nosso corpo. Quando algo nos faz bem, nos faz sorrir, gozar, sonhar. Quando faz mal, nos tiram o sono, a fome, nos adoecem, matam. Os sentimentos são instáveis, não deveriam ser considerados tão importantes. Hoje seu coração acelera quando você pensa em alguém, amanhã esse mesmo alguém pode te provocar náuseas. Tudo é tão insustentável. Mas nós somos muitas vezes impulsionados a agir de acordo com o que sentimos. Essa é a definição de uma pessoa impulsiva. Ela age sem pensar muito. Sente e faz. Depois não consegue lidar com as consequências do que fez. Eu sempre evitei ser assim. Eu penso mil vezes antes de fazer algo. Eu tento. Mas será que isso faz alguma diferença? Eu também erro e também me vejo incapaz de sustentar as coisas. Quem nunca seguiu um impulso e chutou o pau da barraca? Isso é bom quando a gente quer sair da barraca e não consegue. Mas é péssimo quando você ainda gostava dela, porque ela cai em cima de você e nem sempre é possível concertar o estrago. Mas também é um enorme estrago ficar preso dentro de uma barraca quando você queria pode sair para ver a praia, o por do sol, caminhar por aí. Esperar ter certeza de que não perderá nada, de que não sofrerá, de que está fazendo a escolha certa, é um grande erro. Certezas não existem. O que existe são pessoas. Contraditórias, caóticas, confusas. E as relações entre elas, os conflitos. Toda relação é um gerenciamento de conflitos. Há uma certeza: os conflitos. Sempre existiram, sempre existirão. Com quem quer que seja, em qualquer relação. Eles podem demorar para aparecer, nós podemos ignorá-los por um tempo, mas eles estão lá. Como lidar com eles? Como estar perto de quem se ama se a relação sufoca? O jeito de ser dessa pessoa e o seu não se encaixam. Se valer a pena, é preciso ceder, negociar, abrir mão, perder. Qual é o limite disso? Até quando se deve agradar os outros? São essas questões que é preciso levar em consideração quando você se relaciona com alguém. Eu estou falando de relações amorosas. Pais e filhos, irmãos, amigos, namorados. Não importa, toda relação carrega seus problemas. A gente é condicionado a buscar o que é mais fácil. Se afastar, desistir, bloquear. E seguir a estúpida ilusão de que encontraremos alguém “melhor”. Mas isso resolve? Claro que devemos manter distância de algo que nos faz mal. Mas se todas as relações trazem conflitos é melhor viver isolado? Não gostar de ninguém? Ficar trocando de relação para manter a ilusão viva? Não foi dessa vez, na próxima dá certo. Essa ilusão eu não tenho mais. Claro que para uma relação sobreviver aos conflitos é preciso que as duas (ou mais) pessoas estejam interessadas. Se uma delas não tenta, não vai funcionar. Uma relação não existe sem o outro. E às vezes é mais saudável romper uma relação que não tem jeito e construir outras. Quando saber a hora certa de romper? Isso sim é irônico, porque por mais que os sentimentos sejam meras conexões nervosas, são eles que sustentam as relações. As atitudes importam, mas se você não sentir mais nada, serão como construções vazias. E aí a gente volta ao mesmo ponto de antes: é preciso conhecer os próprios sentimentos. Será que isso é possível? Como conhecer terminações nervosas que mudam o tempo todo? A cada palavra, a cada olhar, a cada sorriso, uma só conversa com alguém e os sentimentos mudam. E isso definitivamente não é amor. São paixões. Paixões são passagens, flutuações. Mas somos apenas partes e como partes somos atravessados por elas. A liberdade é a pior de todas as ilusões. Diante dessas paixões, há quem prefira pensar e sentir antes de agir. Mesmo correndo o risco de ficar estagnada diante das incertezas. Outros preferem agir de acordo com os sentimentos de cada momento. Todas as nossas ações são como chutes no escuro. Às vezes acertamos a bola, às vezes a pedra.

E isso me lembrou uma música do Marcio Policastro que eu gosto muito. Ela diz assim: “a vida é feita de mal-entendidos, eu chuto pedra só pra tropeçar”. 

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